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O dia que recusei vender


Oi Reader,

Alguns dias na loja me ensinaram mais sobre o ofício do que qualquer venda.

É o dia em que eu digo “essa peça não é pra você."

Mês passado, entrou uma cliente decidida.

Tinha visto uma armação em uma influenciadora e queria exatamente a mesma.

Trouxe a foto, sabia o modelo, sabia a cor.

Eu mostrei a peça. Coloquei nas mãos dela. Pedi que experimentasse.

O modelo era lindo.

Mas era pesado pra estrutura do rosto dela.

As hastes pressionavam levemente a têmpora.

A ponte repousava alguns milímetros abaixo do ideal.

Nada gritante.

Só aquele tipo de detalhe que, com o tempo, transforma encanto em desconforto.

Ela disse: "tudo bem, eu me acostumo."

Ela tinha o dinheiro. Eu tinha a peça. Bastava passar o cartão.

Mas o ofício exige outra coisa.

Pedi um minuto.

E disse:

“Antes de te vender, deixa eu te explicar uma coisa. Talvez isso não te incomode agora. Nem nas próximas semanas. Mas, com o tempo, você vai começar a tirar esse óculos quando ninguém estiver olhando. Vai deixar de usar sem perceber. E provavelmente vai acabar procurando outra solução depois.”

Mostrei outras duas opções que faziam mais sentido para o rosto dela.

Ela ficou surpresa.

Disse que nunca tinha ouvido isso dentro de uma ótica.

O luxo de dizer não.

A peça certa, naquele caso, não era a da influenciadora.

Saiu satisfeita.

E essa não foi a única vez em que a escolha mais honesta contrariou a venda mais fácil.

Em um dia, um cliente entrou decidido a trocar de armação.

Insistia que a dele já estava velha.

Peguei a peça nas mãos.

Quatro anos de uso. Acetato em ótimo estado. As plaquetas precisavam de troca. As lentes ainda funcionavam perfeitamente para o grau dele.

Disse: "essa armação ainda tem alguns bons anos pela frente. Se você quiser trocar por vontade de mudar, tudo bem. Mas, por necessidade, não precisa."

Ajustamos. Trocamos as plaquetas.

Não vendi uma armação nova. Ele saiu economizando.

No mês seguinte, voltou atrás de uma armação para o filho.

Meu pai dizia que vender óculos era fácil.

Difícil era descobrir o óculos certo.

Hoje eu entendo que descobrir o óculos certo, às vezes, significa não vender.

Significa indicar outra peça.

Significa adiar a troca.

Significa dizer "vai pensar com calma e volta depois".

A venda fácil de hoje custa a confiança de amanhã.

Já a honestidade permanece por muitos anos.

Quando passar aqui, vou te falar a verdade.

Mesmo quando ela não favorece a venda.

Um abraço,
Natan Marcelo Benchimol

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